Personagem: Clarice
CLARICE, avó de Cecília, mãe de Mel.
Morava numa casa grande e sua família era rica, mas educava os filhos de forma mais liberal. Tinha um irmão chamado Lucas, que era mais velho que ela. Os dois eram bastante apegados. Estudaram juntos durante toda a infância em casa, com professoras particulares e na companhia da amiga Cecília, a vizinha, de quem Clarice ficou muito amiga. As duas aprenderam as operações bem melhor que Lucas e bem mais rápido. Brincavam de competir quem acabava mais rápido uma conta. Com o tempo, Clarice começou a perder. Aos sete anos, já nem brincava mais, preferia brincar de contar histórias fantásticas e inventar coisas. Interessava-se bastante pela leitura. Cecília e Lucas adoravam escutar.
Além dos dois, os amigos de Clarice eram os filhos dos amigos da mãe, Matilde, e do pai, Ronaldo, mas a menina não gostava muito de brincar com eles. As crianças de seis, sete anos, sempre muito protegidas pelas mães, enquanto Clarice tinha uma educação mais liberal, podendo brincar mais solta.
Iam muito aos clubes, mas Clarice preferia ficar perto da mata, longe do concreto e da proteção. Faziam brincadeiras longe das fronteiras seguras da associação. Foi assim que ela conheceu Alice, filha do zelador que falava engraçado, ele era argentino, José Mário Antônio.
A amizade com o homem da limpeza surgiu quando ela derrubou uma das estátuas em miniatura do prefeito da cidade, que ficava na área mais afastada do parque. José ajudou-a a ajeitar a estátua, junto com Cecília e Lucas. Depois conversaram com o homem comendo mangas que ele pegava no pé da árvore nos limites do clube.
Descobriram que ele tinha uma filha da idade de Lucas. Incentivaram-no a trazê-la para o parque sempre que pudesse, pois todas as tardes eles brincavam ali e queriam conhecer a garota. No dia seguinte, Lucas brincava com Cecília de operações e Clarice passeava pelos arredores do Parque, olhando para todos os lados à procura da nova amiga. Correu ao posto de serviço de José e viu que ele ainda não havia chegado.
Faltavam dois dias para o seu aniversário e Clarice estava entediada. Olhava para as crianças brincando perto das mães. Foi até Matilde e deu-lhe um beijo – era uma forma de avisar à mãe que estava viva e despreocupá-la. Teria, no mínimo, meia hora, a partir dali, para ir onde quisesse e fazer o que quisesse sem que ninguém lhe procurasse. Correu para a entrada do clube pelo atalho escondido que havia criado com Cecília e José. Encontrou o zelador e uma garota ruiva, magrinha, com lágrimas nos olhos. José se abaixou e conversou algo com a menina. Ela não podia escutar, mas percebeu que o segurança não havia deixado a filha do zelador entrar no parque.
Arrumou o vestido, voltou correndo e calçou os sapatos apertados. Não conseguia correr muito, mas se esforçou para chegar o mais rápido possível. Na entrada não encontrou ninguém. José entrava, vestido com sua farda, mas estava sozinho. Ficou triste, achando que a corrida havia sido em vão. Passaria mais uma tarde com Lucas e Cecília brincando as mesmas brincadeiras de sempre, há dois dias do seu aniversário. Pegou o atalho novamente e foi para a rua. De longe, viu a mesma garota magrinha e ruiva carregando uma bolsa pesada no meio da rua, caminhando cm dificuldade. Correu até ela e segurou-a pela mão. Nada disse, apenas puxou a menina correndo até a entrada do Clube. Alice acompanhou, cheia de dúvidas, cheia de receios, mas correu. Com o vento forte nos cabelos grandes, mal podia enxergar direito quem lhe segurava a mão.
Na entrada do clube foram barradas novamente pelo segurança. Clarice prontamente tirou suas roupas arrumadas, vestiu em Alice e pôs a camisa da garota em si. Segurou-a pela mão novamente e mandou chamar a mãe, Matilde Martins Rubens Monteiro. O segurança preferiu que ela mesma fosse falar com a mãe. Deixou as duas garotas entrarem. Elas tomaram o caminho principal e depois seguiram pelo atalho secreto de mãos dadas até onde Cecília e Lucas brincavam nas poças de lama da mata.
Não falavam nada no caminho. Ao chegarem, Cecília e Lucas estavam cheios de perguntas e bastante sujos. Alice permanecia calada, ainda segurando uma sacola. Clarice pegou sua sacola, colocou no chão enquanto se apresentava. “Gosto quando chamam Clara, essa é Ceci e meu irmão Lucas – ele é do bem”, falava em tom baixo, olhando firme para aqueles olhos deslumbrados.
Amanhã vai faltar um dia para o meu aniversário. Quer vir para a festa? Alice balançava a cabeça, ainda sem acreditar em tudo que acontecia, sem conseguir acreditar naquele lugar. “Qual o seu nome?” Alice.
Era a amiga que Clarice procurava. Alguém que adorava ouvir suas histórias e não gostava de brincar de operações. Gostava do jeito engraçado que a amiga falava, às vezes não entendia o que ela dizia.
Foram ficando próximas a cada tarde. As tardes se tornavam maiores, à medida que iam crescendo. Clarice ensinou Alice a ler e escrever e as duas tinham gosto pelos livros. Faziam sessões de contos interpretando, quando os pais viajavam e ficavam sozinhos com as empregadas. Elas também adoravam as histórias das duas, mas tinham medo que os pais descobrissem que a filha do zelador do clube freqüentava a casa da família. Por isso esses encontros eram tão raros e tão preciosos.
Conheceu a casa de Alice apenas com 16 anos, quando o motorista de Cecília aceitou levá-las sem contar aos pais. Chegaram de surpresa e tiveram bastante dificuldade para achar a casa da garota. A lembrança mais forte para Clarice era aquele cheiro forte de animal que rodeava toda esquina. Chegava a ser difícil de respirar. Ficou com vergonha quando Alice percebeu. Perguntava-se como ela conseguia aquelas coisas, adivinhas pensamentos, emoções e compartilhar tudo apenas com um olhar. Parecia telepatia, ou coisa de outro mundo, não sabia explicar. Depois da primeira, passaram a ir várias tardes à casa de Alice. José estava trabalhando no clube, elas poderiam se divertir num lugar diferente, sem a perturbação dos pais.
Nessa época os estudos já estavam mais sérios. Lucas estudava junto com Cecília para tentar fazerem faculdade. Clarice não conseguia entender Cecília, pois sempre tivera uma educação simples e liberal. Os pais sempre diziam que sua filha poderia completar os estudos, para não depender de homem algum. Era uma educação bastante feminista, até certo ponto, para a época.
15 anos.
Também tinham as festas que Cecília adorava promover. Agora, já adolescentes, faziam pequenas reuniões de amigos na casa de Cecília sempre que os pais dela viajavam. O pai era diplomata e a mãe seguia-o em todas as viagens. Nessa época começavam as brincadeiras mais sexuais. Brincavam de Verdade ou Conseqüência e de Roda Garrafa.
Clarice e Alice sempre reuniam os que não se interessavam pela brincadeira para ouvir estórias. Josué, um dos amigos de Lucas sempre se interessava pelas histórias. Estava sempre tentando se intrometer na conversa das meninas. A beleza de Alice chamava a atenção de muitos, apesar de suas roupas mais simples. Para as festas, Clarice sempre escolhia alguma roupa para a amiga.
Adorava ver a felicidade que ela sentia quando se olhava com aquelas roupas diferentes, como ela chamava. Uma vez combinaram de participar da brincadeira de Roda Garrafa. Alice confessou que nunca havia beijado. Clarice riu perguntando por que o tom de segredo. Ela também nunca havia beijado e ambas sabiam por intuição, pois haviam crescido juntas. Ficaram imaginando se deviam perguntar algo além disso. Pela primeira vez o silêncio entre as duas era constrangedor: mostrava que havia algo escondido sob aquela terna e envolta amizade. Algo que ambas não sabiam definir e por isso ficaria velado, incodificável que era. Acabaram perguntando a Cecília como a brincadeira funcionava.
Quando a garrafa girava, o coração de Clarice parecia congelar. Pedia para que não parasse nunca e continuasse girando para sempre, até ganhar forças e subir aos ares. Não sabia se tinha mais medo que parasse nela ou em Alice. Trocavam olhares rápidos, indecifráveis até mesmo para elas. A primeira a sair foi Cecília. Ela adorava a brincadeira. Estava paquerando um amigo de Lucas, mas não tinha jeito da garrafa indicar os dois. A próxima vez foi a de Gabriela, filha de políticos influentes. Alice seria a próxima, Clarice tinha certeza. Seu coração gelou.
Logo com seu irmão! Seria imperdoável, ele não poderia fazer isso. Como? Ele segurou a mão dela. Meu deus. Que cara eu estou fazendo. Cecília olhava-a com um jeito estranho. Encontrou o olhar de Alice tão desesperado quanto o seu, mas permaneceu em silêncio enquanto aquele pedido de socorro tão singelo se alastrava por suas veias. Foram segundos eternos durante os quais não escutava nenhum som vindo do ambiente onde estava. Um grito a despertou e, num relance, já via a amiga correndo pela casa e saindo pelos fundos. Logo depois saía Lucas. Correu com Cecília ao encontro dos dois.
Lucas estava vomitado e Alice chorando nos fundos da casa, tentando se limpar. Sentou-se ao lado de Alice. “Acho que foi uma péssima idéia, isso”. O coração desacelerava à medida em que cabiam em si, num abraço. Voltaram para casa de Alice, discutindo o que seria amor. Continuaram no tema até amanhecer, quando era preciso se despedir. Clarice ousou um beijo nos lábios da amiga, dizendo logo em seguida: um dia a gente aprende.
A tarde na casa de Clarice não seria muito diferente de todas as outras se as aulas não tivessem sido separadas. Se aquele clima estranho com Lucas não tivesse tão pesado, se as aulas fossem sempre de literatura, se o sono não estivesse tão…
Cecília ajudava Clarice com a lição de álgebra enquanto Lucas e Alice assistiam à aula de literatura. Clarice dormiu em cima dos livros – não agüentava mais aquela tortura numérica a fuzilar seus neurônios. Deixou Cecília se divertir com todas as operações sem nada para lhe atrapalhar. Poderia descansar até as 15h30, quando as aulas de Alice e Lucas terminariam. Poderia levar a amiga em casa, conversar e talvez escrever algo. Acordou somente às 17h. Cecília havia ido embora e a sala de estudos estava vazia. As empregadas disseram ter visto Cecília e a professora conversando na sala. Procurou pela casa, foi em seu quarto e nos aposentos de Lucas. Pelo corredor, viu a porta da biblioteca fechada. Achou estranho. Chamou a mãe, pediu a cópia e levou-a ate lá. Lucas estava por cima de Alice, segurando sua boca, em cima da mesa do pai, ambos seminus.
Alice foi expulsa da casa sem ter tempo ao menos para vestir suas roupas. Matilde acusou-a de ter tentado seduzir Lucas e chamou Alice de todos os nomes possíveis e imaginários enquanto entrava pela biblioteca. Clarice permanecia estática, diante da porta. Quando Matilde chegou perto de Alice, para tocá-la, tomou um susto com a mão de Clarice segurando a sua. Uma voz quente bem perto do seu ouvido advertia: nem se atreva a tocar nela. A mãe assustou-se. Clarice cuspiu em Lucas, ajudou Alice a vestir suas roupas e chamou o motorista para levá-la em casa.
As duas choravam no caminho. As mãos se tocavam, mas os corpos estavam distantes, assim como os olhares que se encontravam de relance, por necessidade.
Clarice não sabia se aquela era a primeira vez que algo do tipo acontecia e a dúvida machucava o âmago do seu ser. Caso suas suspeitas estivessem corretas, teria sido tão estúpida a ponto de não perceber, não duvidar? Por que ela vomitara em Lucas, dias antes, na festa de Cecília? Não era o momento para perguntas, o silêncio era finalmente cúmplice e não comprometedor. Pediram ao motorista para deixar longe da casa da garota. Queriam andar, conversar um pouco. Além disso, não sabiam se José estava em casa. Era melhor ficar em alguma esquina, ali… naquela rua sem sobrenomes ou pompas, onde todos as conheciam, onde todos sabiam que amavam-se, menos elas.
Sentaram-se na esquina da praça, à espera de palavras bruscas, de coragem para perguntas e respostas. Vieram mais lágrimas, mais solidão, mais necessidade. Tudo contemplado num abraço, protegido da realidade pelo instinto. E sob as luzes fracas da noite, reconheceram-se na dúvida e no calor dos olhares. Palavras poucas, confissões mínimas, telepatia tácita.
Permaneciam juntas sem saber o que aquilo significava, sem entender qualquer sentimento. Até que os olhares denunciaram os desejos e toda e qualquer vontade estaria à mostra. A delicadeza do rosto traduzindo o querer em tons de rosa e nos sorrisos nervosos. Era aqueles cheiros que precisavam estar juntos, face a face, diante da estranha riqueza que era encontrar, em si e na outra, um espelho que refletia apenas novidades. Novas e antigas cantigas da ruiva que passeava, rejeitada, pela rua do clube a lhe esperar. De novo esperou pela salvação, para chegar a este olhar que tudo conhece e aprova, sentindo a vocação de viver para, viver de e viver com.
Mas durante o beijo de despedida, ele chegara. Josué ___________, filho _____________, amigo de Lucas. Estaria à procura de Clarice a mando de Matilde. Preocupada com a filha conseguiu colocar toda a polícia atrás dela. Procuraram nos mocambos na cidade, invadiram casas e até encontraram seu José deitado, esperando Alice, tomando mais um gole de café. Espancaram-no, jogaram-no fora de casa, destruíram a cozinha, a sala e ainda roubariam uma foto de uma puta ruiva gostosa que ele guardava na carteira. “Né velho safado? Não sabe que é crime, não?”
Josué avisou, num susto, o que Clarice já esperava, já pressentia, sem acreditar em si mesma ou no momento. Alice quis ver o pai, Clarice quis brigar com a mãe. Josué quis dizer que ambos ficariam bastante felizes quando soubessem o que as garotas estavam fazendo. Era necessário dar algo em troca do seu silêncio. Sem raciocinar sobre a necessidade ou não do mesmo, Clarice combinou que se encontrariam na entrada do clube, bem à direita, para não chamar atenção de nenhum segurança, às 4h30 da manhã. De lá seguiriam pela trilha da mata, até a estátua de mármore.
Se deram conta de que não tinham onde dormir, assim que Josué foi embora. Se deram conta da realidade, quando olharam em volta. Expostas, perguntavam-se “criminosas?” Com o dinheiro que tinham, era possível pegar um trem para qualquer lugar, ou dormir num hotel, mas não era possível subornar, muito menos assegurar o bem estar de ambas.
Pegaram um táxi para o outro lado da cidade, onde, com certeza, não as procurariam. Poderiam ainda tentar falar com Cecília, mas pela proximidade da casa de Clarice, era impossível chegar à casa da amiga sem ser percebida. A não ser que conseguisse, de longe, mandar o sinal de luz com que brincavam na mata à noite. Difícil seria escrever o sinal depois de tanto tempo sem praticá-lo. Aquela ainda era a época em que brincava de matemática com Cecília e Lucas. Lucas! Ele também perceberia. Não tinha como, teria de ir encontrar Josué, fazer o que ele pedisse. Quais seriam suas condições?
Foi ao encontro sem saber como esconder-se ou o que escondia. Escondia-se principalmente de Alice, que não poderia saber que onde iria. A garota achava que ela tentaria encontrar um jeito de chamar a atenção da amiga, mas Clarice optou por dar uma condição a Josué também. Vestiu-se de homem, foi até a casa dele de madrugada. Disse que era sobre o paradeiro de Clarice e que precisaria falar com Josué. Todos da casa acordaram, ela ficou nervosa. Disse que avistou um táxi que levava duas garotas, uma ruiva, outra morena, para o lado leste da cidade. Seguiu o táxi até a estação de trem de onde uma garota morena desceu e pegou o trem das 22h, sozinha. Quando avistou o táxi não avia mais ninguém. Procurou pela estação, mas não havia sinais da ruiva.
Encontrou apenas esse papel, com alguns rabiscos. Caiu da bolsa da morena, quando ela desceu do táxi. Não parece dizer nada, são apenas rabiscos, mas tinha o nome Cecília, ao final. Parecem ser amigas, não? Não sabia onde encontrá-las, amigo. Por isso vim até sua casa. Soube que você ajudou a mãe de Clarice a procurar por ela. Espero que ajude agora. Talvez Cecília possa decifrar o que tem escrito.
Foram todos até a casa de Cecília. Clarice, vestida de amigo de Josué, disse que estava bastante casado, iria para casa dormir. Ofereceram-lhe carona, mas preferiu ir andando, para poder digerir a situação. Eram 3h40 e chegaria no parque bem antes da hora marcada com Josué. Se tudo desse certo, Cecília iria estar lá dentro de vinte minutos. Sentou-se diante da trilha secreta e esperou. Nunca havia prestado atenção nesses sons, nesses ruídos. Na mata, tudo tinha vida, tudo era livre, tudo estava suspenso, porque não pertencia a nenhuma regra, nem aceitava qualquer ordem. Quisera ser mordida por todas as formigas e bichos da mata. Queria não precisar resistir, queria o colo e o rosto quente de Alice, sustentando a idéia de que não poderia ficar pior, e também não teria como ser tão bom.
Eram muito mais dúvidas do que satisfações e certezas. Queria saber o que Cecília diria, queria uma voz consciente da realidade, porque ela estava suspensa na imaterialidade dos sentimentos que a seqüestraram. Ouviu o som dos passos aumentarem, até que eles se misturaram com o palpitar do seu coração. Encontraram-se ofegantes de um desespero que não era comum, aceitando todo e qualquer risco.
Não sabia como contar. Entre cada código, cada rabisco, apenas um pedido de socorro e o local onde deviam se encontrar. “Preciso de você. Precisamos muito. Na trilha secreta em dez minutos”. Foram apenas seis, tamanha a aflição da amiga. Mas a primeira frase foi pronunciada apenas depois de quinze minutos. Era uma pergunta. Cecília queria respostas, explicações, mas não sabia também por onde começar. Que horas havia ido embora da casa de Clarice? Porque não foi à biblioteca, se a amiga havia dormido? Teria sido bem melhor estudar com Lucas, realmente. Aos poucos descobriu que todas as perguntas não eram para descobrir o culpado, ou entender a situação, como ela aconteceu. Era remorso, era desespero, era renúncia. Seu choro eram lágrimas de ouro, de sangue, de entrega.
Entendeu. “Onde ela está?” Clarice chorava. Pegou a mão da amiga e encostou-a no seu peito, em direção ao coração que saltava pela garganta. Cecília chorava. “Vocês não podem ficar aqui”. Clarice contou rapidamente sobre Josué, entre um soluço e outro, não sabia como distinguir tudo, separar e acalmar-se. Faltavam 10 minutos. Alice devia estar preocupada, devia ter voltado há meia hora. Mandou-a deixar o clube pela saída dos fundos, se fosse preciso que roubasse a chave de José, na planta mais alta. A verde. Ela encontraria com Josué e depois iria ao hotel onde estavam.
Clarice nunca correu tanto. Corria para se salvar de um mal desconhecido que acabara de ameaçar. Ela não saberia perceber nenhum vulto ao seu redor. Não reconheceria nenhum som. Esperar o assombro seria estúpido, mas ela não teve como fugir dele. Voltou aos poucos, como se a decisão estivesse esperando alguma ajuda divina que não veio e, por isso, recolheu-se à sua insignificância à passos fracos. Quase desequilibrando-se em sonos e murmúrios, encontrou Cecília novamente, cercada por quatro pessoas. Não emitiu som algum, tamanha a sua insuficiência, gigante que era seu espanto. Josué e mais três intimidavam em círculos, fazendo-se todos cúmplices de um crime no qual não acreditavam, um delito inexistente que despertava qualquer limite sentimental dentro deles.
Reconhecia o medo no rosto da amiga, esperava pelo mesmo em qualquer gesto, mas viu apenas uma perna balançar. Um ritmo de dúvida suspeita que aproveitou bem. Correu à rua, conseguiu identificar dois carros. De um, quebrou os vidros, rasgou os pneus e escondeu as chaves. O outro deixou intacto, mas guardou as chaves consigo. Pelo barulho viriam os seguranças. Fugiu pelas matas antes que eles aparecessem e, assim que deram sinal de vida, foi correndo e gritando ao encontro deles.
Era difícil não parecer consigo própria para pessoas que a conheciam tão bem. Seria melhor assumir. Disse que estava escondida nas matas e ouviu gritos de mulher. É Cecília. É Cecília, por favor ajudem. São quatro. Levou os seguranças até o local. Cecília estava no chão. Clarice correu ao encontro dela, levantou a amiga e, enquanto os seguranças, detiam os garotos, elas fugiam. Um deles foi atrás delas. Clarice mostrou as chaves e disse que teriam de ser rápidas.
Chegaram no hotel em meia hora, pois era preciso despistar muita gente naquele carro conhecido. O dia amanhecia quando a moça da recepção entregou as chaves. Não tem ninguém no quarto, perguntava Clarice, já apreensiva. Uma moça saiu. Uma ruivinha. Foram no quarto de todo jeito. Estava arrumado. Na mala de Clarice, outro bilhete em código. Preciso saber se meu pai está bem.
Fazia sentido. Se estavam à procura de Clarice, o primeiro lugar onde iam procurar seria na casa de Alice. Se não a achassem lá, o que fariam com quem estivesse na casa? Com a repressão do governo e a influencia que seus pais tinham, ele já poderia estar morto. Seria mais um cadáver sem nome.
As garotas tomaram banho. Juntaram o dinheiro que tinham. Cecília havia juntado dinheiro suficiente para fugirem. Roubou antes de sair de casa. Contou que as marcas que tinha no corpo não foram feitas por Josué ou seus amigos. No escuro e calor das emoções, a amiga não pode perceber, mas aquelas marcas estavam consigo desde o encontro na mata. Seu pai não aprovara a desistência do magistério e, quando soube que a filha queria cursar faculdade de engenharia, ficou irritado. Cecília teve de contar toda a verdade sobre seus estudos paralelos na casa de Clarice depois das aulas e também a respeito de sua habilidade com matemática.
O pai bateu bastante na garota. Não a deixara sair à noite, quando Josué e os pais dele levaram-lhe o bilhete. Mas estava decidida que deveria ir.